- “Jesus te abençoe!”
Sons estranhos vindo do quarto de brinquedos. A Catarina brincando com a babá, dando bênção na boneca. Uh-oh.
Eu evito confronto por natureza. Evito não, fujo, supersônica. Confronto com babá, então, melhor nem pensar. Mas uma DR se fazia necessária. Ensaiei mentalmente o texto, esperei uma oportunidade chegar… E esperei, esperei e deixei passar. Se a menina não saiu louvando Jesus de novo, meno male.
Mas hoje eu flagrei pelo meio uma conversa sobre algo que “… o papai do céu não gosta”. “E quem é o papai do céu, Nana?”. A explicação não chegou a vir, porque quem tinha chegado era eu, com a minha cara de espanto. De hoje, então, eu não escapo.
“A Conversa” sobre religião já rolou aqui em casa de uma forma meio light. Ela sabe que nós somos ateus, sabe que não queremos que a Catarina tenha educação religiosa (leia-se: doutrinação por terceiros), mas esses lapsos fazem parte da conversa cotidiana de uma pessoa que é religiosa. Eu só nunca pedi expressamente, com todas as letras, que ela evite mencionar temas religiosos porque nós iremos ensinar sobre todas as religiões na idade apropriada, não agora, que a Catarina é pequena e não sabe discernir entre a madrasta da Branca de Neve e o “papai” habitante das nuvens.
Escrevendo o post, deu vontade de olhar para mim mesma e dizer “viu como é fácil falar?”. Mas não é. Não é nada fácil para mim. Tanto que nas três horas que levei para começar a escrever e publicar, a babá precisou sair e eu… escapei.
Mas só por hoje.
*
Para falar a verdade, eu não entendo como ela não deu uma tirada antológica, já que a única versão de Jesus que ela já conheceu é uma imagem que faz a alegria das crianças da família paterna há três gerações.
Minha sogra tem um Menino Jesus sentadinho num banco, vestindo uma camisolinha e fazendo aquele gesto dos dois dedos com a mão direita. Contam, e eu pude comprovar com a Catarina, que todas as crianças pedem para levantar a camisolinha para ver as partes pudendas do bebê: “Mamãe, porque ele não usa cueca, hein?”. Além do pinto divino, outra boa história é a de um primo, hoje adulto. Ao ver o gesto da mão, perguntou, empolgado: “Quem vai fazer dois aninhos?”.
Por ora, para a minha filha, esse grau de inocência é mais que suficiente.


Mandei o meu pitaco por gmail pra vc!
Adoreeei sua história. Já te respondo comme il faut.
Você é tão fina, Cam, sério. Eu teria “A” conversa já no primeiro “jesus”. Isso é tão problemático pra mim. Fico nos cascos quando sei que vós e tias ensinam a Nina a rezar pro anjo da guarda. Atropelei o prazo e já informei que não acredito, que é tudo história, que milhões crêem em Buda, Lakshmi etc. Quase meti o Papai Noel no meio. TMI. Eita, só eu não sabia do blog!? Magoei. ;)
Esse atropelamento de prazo foi com a própria Nina? Miro-me no exemplo rs.
E eu já tuitei umas duas vezes o blog, uai. É que eu acho meio chato ficar botando lá toda hora. :-)
Sim, com a própria. Ela já sabe que não gosto de papo religioso e qd questionada afirmei q se tratam de histórias nas quais as pessoas gostam de acreditar. Por sorte consegui também me livrar da escola católica perto de casa, para o ano que vem – achei uma construtivista laica. Talvez eu tenha chutado o balde cedo demais, mas ela tinha começado de cobranças – pq vc não reza, pq não gosta de anjinho, hahahah. Aí fui obrigada a me posicionar. Ai, sei lá viu.
Muito complicada essa intervenção de terceiros na forma como acreditamos ser a melhor para educar, criar e não é apenas sobre religião. Convivo direto com o fato de avó e etecéteras falarem e ensinarem coisas as quais discordo, mas faço direferente. Como maridón fala, não dá pra segurar a língua alheia, mas tento falar para o João, de um jeito q ele entenda que o q falaram p ele é só a opinião da pessoa, mas que não é bem assim. Só não sei se funciona, hehehe.
Durante mtos anos, meus sobrinhos acreditaram que papai noel e papai do céu eram a mesma pessoa. Ai qdo começaram a perceber q o moço da cruz era mto mais magro do que o papai noel, perceberam que tinha alguma coisa errada. Porém, o primeiro contato que meu sobrinho (11 anos atualmente) teve com religião foi aos 6 mais ou menos, durante as aulas de tae kwon do, com um professor budista. Hoje, ele reza pro anjo da guarda, faz meditação, não come carne vermelha nem bebe leite e diz q prefere Buda à deus. Minha conclusão? Qto menos se falar em religião com criança, mais surpreendente é o caminho que ela escolhe.
um beijo
Barbara
PS: cheguei aqui pela Zel
Eu ia mesmo perguntar que fim havia levado o caso da bença pra boneca, mas vejo que a coisa foi um pouquinho potencializada.
Muito difícil. Eu vivo de olhos e ouvidos abertos com relação a essas coisas virem da escola e de casa de parentes. Ainda não aconteceu, ele só voltou cantando Rebolation e falando “cala a boca” do curso de férias.
E preciso dizer que ri alto com a história do MJ da sogra. :)
putz, eu sei la como vou fazer. certamentese depender de nos nao vai rolar de baba ou coisa parecida falar do assunto, ja vou avisar antes, mas… nao da pra controlar terceiros, eh complicado.
o jesus do quadro na casa da nonna tinha uma serventia: quando a musiquinha era animada, eu pedia pra que ele batesse palmas junto comigo. nunca me obedeceu, o estraga-prazeres.